Falsa Crise dos Focos de Incêndio na Amazônia


Economia e Energia – E&E    
Nº 104, julho/setembro de 2019
ISSN 1518-2932 Disponível em: http://eee.org.br e http://ecen.com (números anteriores)

Palavra do Editor:

FALSA CRISE DE DESMATAMENTO,
PROBLEMA REAL

A crise de desmatamento da Amazônia no Governo Bolsonaro envolve alarmes de desmatamento e de incêndios e é factualmente falsa por duas razões:

  • Os focos de incêndio estão 11% acima da média até agosto[1], mas isso está dentro da normalidade e não indica, obrigatoriamente, aumento do desmatamento; prova disso: no ano passado (2018) o número de focos foi 40% menor que o do ano anterior e o desmatamento aumentou.
  • O desmatamento voltou a crescer desde 2015 e isso não pode ser atribuído aos meses de Governo Bolsonaro; além disso, o nível de desmatamento projetado não deve ultrapassar a 30% do já alcançado em outros governos.

Existe, no entanto, um problema real que se deve reconhecer: há uma retomada no desmatamento e isso já dura cinco anos[2]. A E&E já havia apontado essa tendência há dois anos.

Se não há razões técnicas para apontar uma crise de desmatamento, é inevitável admitir a existência de uma crise política que ultrapassou nossas fronteiras e já motivou manifestações de governos relevantes no cenário internacional como da Alemanha, Noruega e França.

Contribui para isso o discurso considerado “antiambientalista” de membros do governo. Esse discurso provoca reações e a bipolarização resultante leva a que o governo seja naturalmente responsabilizado por eventos negativos na área de preservação. Além disso, o Brasil assumiu, a nosso ver sem a necessária discussão com a sociedade, compromissos “voluntários” pelos quais agora é cobrado.

O problema atingiu essa proporção depois que o Presidente da República, questionado por jornalista sobre um alerta de desmatamento do mês de junho que havia dobrado em relação ao do ano anterior, aceitou a provocação e, na resposta, levantou a suspeita que o indicador do próprio governo seria desonesto. A questão colocada referia-se a um mês fora do padrão e poderia ter sido facilmente contestada com as estatísticas já disponíveis.

Com a reação pública do então diretor do INPE, a polêmica interna foi encampada por vozes internacionais que se levantaram contra a política atual que estaria destruindo a floresta amazônica ao negligenciar o controle do desmatamento. Isto foi o que bastou para que fossem relançadas ideias de internacionalização da Amazônia.

Posteriormente, foi ensaiada uma nova crise relativa aos alertas de incêndios florestais que têm características sazonais e não estão diretamente vinculados ao desmatamento, como demonstra a comparação dos dois fenômenos ao longo dos anos. Além disso, o indicador estava dentro do esperado para o mês.

Os números históricos do desmatamento da chamada Amazônia Legal no Brasil revelam um desmatamento crescente, com picos nos inícios dos governos FHC (1993) e Lula (2004). Em seguida, houve um de vigoroso combate ao desmatamento. No período 2004 a 2015, a área desmatada anual caiu a um quinto do valor de pico.

O pico de desmatamento de 2004 criou a necessidade de um mecanismo de alerta contra o desmatamento, a exemplo do já existente de alerta contra incêndios florestais. A partir de 2015, o sistema conta com mecanismos de alerta de desmatamento e de áreas degradadas, que permitem prevenir e reprimir o desmatamento com ações locais. Isso tornou possível conter a tempo o desflorestamento mediante ação conjunta de vários órgãos governamentais.

Ao quantificarmos aqui os problemas dos alarmes a focos de incêndio e do desmatamento, buscamos uma abordagem racional do problema que possa servir de defesa a nossos interesses. Temos sido bons e fiéis guardiões da Amazônia e, por essa razão, temos o direito a defendê-la da cobiça externa. Defesa que só será eficaz usando os preciosos conhecimentos que instituições de pesquisa como o INPE vêm colocando à nossa disposição.

[1] Os resultados de focos de incêndio para setembro de 2019, divulgados pelo INPE no encerramento dessa edição, estiveram 30% abaixo da média para o mês o que trouxe o acumulado para 6% abaixo da média anual até a data.

[2] Por conta disso, o presidente Temer havia tomado um pito da Primeira Ministra da Noruega em junho 2017, àquela altura imerecido.

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Sumário

FALSA CRISE DE DESMATAMENTO, PROBLEMA REAL.

NOVA ONDA DE DESFLORESTAMENTO NA AMAZÔNIA O QUE DIZEM OS DADOS OBJETIVOS   

Resumo.

Palavras Chave:

1       Introdução.

2       Os Polêmicos Resultados de 2019.

3       Incorporação dos dados 2017 a 2019.

4       Enfrentando a Crise.

5       Conclusão.

6       Bibliografia.

Nota sobre a Fake Crisis:

A Falsa Crise dos Focos de Incêndio na Amazônia.